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Smart & Connected
ago 02, 2021

O futuro da saúde é inteligente e conectado: uma visão em prol da transformação digital

Henk van Houten
Executive Vice President, Chief Technology Officer, Royal Philips

Tempo estimado de leitura: 7-9 minutos

O que um smartphone de 200 gramas e uma máquina RM de 4 toneladas têm em comum? Não muito, se considerarmos o valor nominal. Mas se rastrearmos a evolução passada e futura dessas duas proezas muito diferentes da tecnologia moderna, veremos que os dispositivos realmente seguem trajetórias surpreendentemente semelhantes. É por isso que a comparação é significativa, assim como o que ela revela para o futuro da saúde.

Ainda me lembro da empolgação inicial de poder conversar com amigos e parentes onde quer que estivesse. Os primeiros celulares podiam até ser um pouco desajeitados se comparados aos smartphones de hoje, mas representaram uma mudança gigantesca na forma como vivemos nossa rotina diária. A verdadeira revolução em termos de tecnologia de smartphones, no entanto, só ocorreu muitos anos depois, por meio de uma série de desenvolvimentos que viraram do avesso a própria natureza da inovação.

Primeiro, houve a introdução da conectividade de internet em alta velocidade. Isso colocou o mundo inteiro ao alcance dos nossos dedos, nos permitindo encontrar um restaurante nas redondezas ou verificar se vai chover enquanto estivermos viajando. Do ponto de vista tecnológico, a conectividade também trouxe outra mudança fundamental: permitiu que os recursos do smartphone existissem fora do próprio dispositivo físico: na nuvem. Isso, por seu lado, permitiu que os fabricantes atualizassem e fizessem upgrades dos recursos existentes Over-The-Air e introduzissem novos ao longo do tempo, agregando cada vez mais valor para seus clientes.

É difícil exagerar o quão fundamental foi essa mudança. O que antes era um produto estático, um dispositivo que oferecia os mesmos recursos fixos até que você o substituísse por um novo, agora podia encantá-lo com novos serviços toda vez que você o ligasse.

Os fabricantes então abriram suas plataformas para terceiros, introduzindo as primeiras lojas de aplicativos. A partir daí o ritmo da mudança acelerou exponencialmente. Desenvolvedores de outras empresas aproveitaram a oportunidade para disponibilizar uma série de novos aplicativos. Acabava de nascer a inovação do ecossistema digital, um fator de perturbação para setores inteiros, do bancário ao musical, passando pela fotografia. Hoje, tudo que existe tem seu próprio aplicativo e, graças à IA (Inteligência Artificial), esses aplicativos ficam mais inteligentes a cada dia que passa, à medida que aprendem com massas de dados cada vez maiores.

Nossas vidas diárias mudaram profundamente, como resultado. O que antes era demorado e complexo, agora é rápido e fácil. Dividir a conta e pagá-la depois de uma noitada com seus amigos? Feito com um simples toque de botão. Quer desfocar o fundo das suas fotos de família? Não é preciso ser um fotógrafo experiente: um aplicativo fará o serviço para você.

Mais do que nunca, tudo isso me faz pensar em como seria se a saúde — um setor cheio de complexidades — acolhesse as mesmas boas práticas digitais. Quanto mais agradáveis e sem atrito poderíamos tornar as experiências de pacientes e equipes de atendimento se projetássemos dispositivos e sistemas médicos com o mesmo nível de inteligência e conectividade? Quanto mais valor esses sistemas e dispositivos poderiam agregar ao longo de sua vida útil se pudéssemos atualizá-los e fazer upgrades com a mesma facilidade que os nossos smartphones? E quão mais rápido seríamos capazes de inovar se adotássemos a mesma abordagem de ecossistema que passou a dominar outros setores?
Quanto mais agradáveis poderíamos tornar as experiências de pacientes e equipes de atendimento se projetássemos dispositivos e sistemas médicos com o mesmo nível de inteligência e conectividade dos nossos smartphones?

É nesse ponto que as inovações passadas e futuras em diagnóstico por imagem de ressonância magnética (IRM) podem servir como um exemplo revelador: não importa o quão distante uma sala de exames de imagem possa parecer do mundo dos smartphones, se olharmos mais de perto veremos que um padrão semelhante de transformação digital está começando a surgir.
Digital transformation

Trazer a RM para o mundo conectado

 

Desde que os primeiros sistemas comerciais de ressonância magnética foram lançados, no início da década de 1980, milhões de pacientes se beneficiaram das imagens detalhadas do corpo que essas máquinas proporcionam para ajudar os médicos a diagnosticarem tudo, desde câncer, danos cardíacos e lesões na coluna até anormalidades cerebrais.

No entanto, inicialmente, como ocorreu com os primeiros celulares, os sistemas de RM foram essencialmente projetados como produtos estáticos e autônomos, revolucionários em termos do que tornaram possível, mas com conectividade e serviços limitados no que excedesse uma manutenção ou conserto básicos.
 
Isso começou a mudar com a introdução da conectividade remota, que é importante de considerar como um primeiro passo da transformação digital. Por exemplo, agora podemos monitorar e analisar mais de 500 parâmetros de uma máquina de RM remotamente, 24 horas por dia, 7 dias por semana, usando análises preditivas para identificar quando determinadas peças do hardware poderão precisar de manutenção ou substituição. Como resultado, 30% dos casos de manutenção podem ser resolvidos antes que resultem em tempo de inatividade — evitando as interrupções que podem ser evitadas na prática clínica e atrasos desnecessários para os pacientes.

Remote Services
A conectividade remota permite a manutenção e o monitoramento proativos de equipamentos médicos como os scanners de ressonância magnética, o que pode ajudar a evitar um tempo de inatividade e atrasos para os pacientes desnecessários

Essa é apenas uma maneira pela qual a conectividade remota pode agregar valor à RM. Além disso, começamos a adicionar inteligência para reduzir a complexidade inerente à RM — um segundo passo à frente na evolução digital do equipamento.

Adicionar inteligência para tornar simples o que é complexo

 

Como qualquer tecnólogo ou operador de RM poderá lhe dizer, não é fácil realizar um exame de ressonância magnética. Cada paciente tem uma anatomia diferente. Há uma ampla gama de protocolos diferentes para escolher. E um exame de ressonância magnética também é demorado: leva de 15 a 60 minutos, dependendo da complexidade do caso. Para os pacientes, passar tanto tempo dentro de um espaço restrito pode ser estressante, mais ainda porque precisam ficar totalmente parados durante o exame. Qualquer movimento do paciente dentro da máquina, requer que o exame seja refeito em cerca de um em cada cinco casos [1]. Com um número cada vez maior de exames e uma escassez de tecnólogos qualificados em muitas partes do mundo, isso exerce uma enorme pressão sobre a equipe, contribuindo para altos níveis de estresse e esgotamento [2].

Podemos tornar a RM mais rápida e mais fácil para o operador e mais confortável para o paciente? Graças à IA e aos algoritmos inteligentes, agora podemos.

Um dos meus exemplos favoritos é uma tecnologia de sensoriamento de pacientes baseada em câmera que permite ao tecnólogo de RM monitorar a respiração de um paciente sem precisar configurar uma antiquada cinta respiratória. A tecnologia consegue analisar mais de 100 locais do corpo paralelamente para extrair sinais de respiração, permitindo que as configurações dos exames de ressonância magnética de rotina levem menos de um minuto mesmo no caso de operadores menos experientes e, ao mesmo tempo, os ajudem a manter um olhar atento no paciente [3].

 

Ao oferecer um apoio automatizado ao fluxo de trabalho, podemos aumentar ainda mais a confiança do operador, permitindo que se concentre mais nos pacientes e menos na tecnologia. Com a ajuda de algoritmos inteligentes, também podemos acelerar drasticamente a aquisição de imagens, abreviando a duração dos exames de ressonância magnética em até 50% [4].

Vital Eye
Embora esses sejam primeiros passos fantásticos, é empolgante pensar como poderíamos tornar a operação dos sistemas de RM ainda mais simples. Por exemplo, por meio do uso mais amplo de uma tecnologia de sensoriamento baseada em câmera que facilite o posicionamento do paciente, ou por meio de algoritmos de reconstrução de imagem que compensem o movimento do paciente.
 
A captação de imagem da anatomia de um paciente pode nunca se tornar tão simples quanto tirar uma foto da família com seu smartphone, mas estou convencido de que técnicas avançadas de diagnóstico por imagem como a RM continuarão se tornando mais acessíveis e menos demoradas. O mesmo vale para o pós-processamento, segmentação e interpretação de imagens de RM, que podem se beneficiar de aplicativos inteligentes que ajudam tecnólogos e radiologistas a captar o sentido de quantidades de imagens cada vez maiores.

No entanto, por mais úteis que essas inovações isoladas sejam em diferentes momentos do fluxo de trabalho da radiologia, precisamos ampliar seu alcance e examinar também o panorama mais geral.

Resolver o quebra-cabeças de um atendimento centrado no paciente

 

Com as redes de comunicações cada vez mais virtuais, não é suficiente nos perguntarmos o que podemos fazer para tornar a RM individual ou outros sistemas de diagnóstico mais inteligentes. Precisamos reconhecer que todos fazem parte de uma "cadeia de sistemas" mais amplo e interconectado — uma rede distribuída na qual os dados dos pacientes precisam fluir através de diferentes sistemas, diferentes locais e diferentes profissionais de atendimento.
 
Assim como nossos smartphones agora podem se conectar com facilidade a um termostato inteligente ou a um carro inteligente, o próximo passo na transformação digital da saúde se dará em torno da integração.

No contexto da radiologia, isso significa que precisamos buscar formas de conectar e otimizar o fluxo de trabalho inteiro — desde o agendamento do paciente até o planejamento da varredura, à sua interpretação, à criação de um relatório e à reunião de diversos tipos de informações do paciente para corroborar a tomada de decisões clínicas (como o meu colega Kees Wesdorp abordou em detalhes aqui).

Systems view
Integração também significa fazer a ponte entre o físico e virtual de modo a transcender as fronteiras tradicionais do atendimento. Por exemplo, por meio de um novo conceito chamado Centro de Comando de Operações de Radiologia (Command Center), agora podemos conectar especialistas em diagnóstico por imagem com os tecnólogos em um hub central nos locais de exames de uma rede de diagnóstico por imagem, oferecendo-lhes apoio virtual como se estivessem na sala enquanto o paciente está no scanner. Isso não só ajuda a padronizar a qualidade da imagem, independentemente da experiência do operador, como também pode tornar técnicas avançadas de diagnóstico por imagem como a RM acessíveis em um maior número de locais, mais perto de onde os pacientes moram, em horários mais flexíveis.

Em conjunto com serviços de telerradiologia (habilitados por IA) para a interpretação especializada das imagens, isso poderia reduzir ainda mais a complexidade da RM e torná-la mais amplamente disponível — uma boa notícia para pacientes que podem não ter acesso a serviços especializados de RM no momento.

Uma jornada contínua de transformação digital

 

Embora tenhamos feito grandes avanços, a evolução digital da RM — como um elemento constitutivo de soluções integradas mais amplas — continua sendo uma jornada em andamento.

Especialmente em termos de conectividade, ainda temos muito terreno para desbravar. Ao longo da última década, o atendimento médico foi cauteloso em sua migração para a nuvem. Mas diante das ondas da COVID-19, a adoção está ganhando impulso. Durante a pandemia, os profissionais de saúde experimentaram em primeira mão como os serviços baseados em nuvem — apoiados por padrões reforçados de segurança — permitem uma rápida implementação de inovações em todos os cenários de atendimento [5].

No futuro, imagino que seremos capazes de atualizar e fazer upgrades da RM e de outros sistemas de diagnóstico Over-The-Air, assim como estamos acostumados a atualizar nossos smartphones durante a noite. Isso significa que poderíamos disponibilizar os recursos mais recentes muito mais rapidamente e sempre poder contar com scanners de ressonância magnética funcionando no auge do desempenho para oferecer aos pacientes um atendimento otimizado.

Durante a pandemia, os profissionais de saúde experimentaram em primeira mão como os serviços baseados em nuvem — apoiados por padrões reforçados de segurança — permitem uma rápida implementação de inovações em todos os cenários de atendimento”.

Também espero testemunhar um aumento da adoção de lojas de aplicativos baseadas em nuvem pelos sistemas saúde, ecoando o impacto revolucionário do modelo de loja de aplicativos dos smartphones. Na radiologia, por exemplo, isso poderia assumir a forma de mercados de softwares selecionados que permitissem aos radiologistas baixar aplicativos validados de um grande número de terceiros desenvolvedores por meio de uma plataforma comum, sem precisarem se preocupar com integrações ponto a ponto para cada aplicativo individualmente (o que rapidamente se transformaria em um pesadelo para um diretor de informática hospitalar). Nessa hipótese, o papel dos provedores de soluções de atendimento médico como a Philips, seria garantir que esses aplicativos pudessem rodar de forma integrada nos consoles e dispositivos móveis usados pela equipe do hospital ou clínica — semelhante a experiência com  que os melhores fabricantes de smartphones oferecem.

Os modelos de negócios provavelmente irão mudar em decorrência disso, com os softwares e serviços baseados em assinatura se tornando mais prevalentes. E de uma coisa podemos ter certeza: nesse novo mundo emergente de ecossistemas digitais, a inovação dependerá mais fortemente ainda da colaboração do que depende hoje em dia.
MR radiology

É voz corrente que superestimamos o impacto da inovação no curto prazo e subestimamos seu impacto no longo prazo. Se for preciso alguma prova desta afirmação para convencê-lo, basta fazer uma breve pausa da próxima vez em que você pegar seu smartphone. Você poderia ter previsto, há 15 anos, todos os benefícios que o dispositivo lhe proporcionaria hoje, a você e a bilhões de outras pessoas ao redor do mundo?


Agora imagine como o atendimento médico poderia ser se fosse tão inteligente e tão conectado.



Referências
[1] https://www.healthimaging.com/topics/advanced-visualization/patient-motion-during-mri-proves-be-costly-conundrum
[2] https://www.usa.philips.com/healthcare/medical-specialties/radiology/improving-radiology-staff-and-patient-experience/staff-research
[3] Segundo testes internos. Os resultados poderão variar. https://www.philips.com/a-w/about/news/archive/standard/news/press/2018/20180228-philips-launches-digital-ingenia-elition-mr-solution-delivering-premium-digital-image-quality-up-to-50-per-cent-faster.html
[4] Em comparação com as varreduras da Philips sem Compressed SENSE. https://www.usa.philips.com/healthcare/resources/landing/the-next-mr-wave/compressed-sense
[5] Cresswell, K., Williams, R., Sheikh, A. (2021). Using cloud technology in health care during the COVID-19 pandemic. The Lancet, 3(1), E4-5. https://www.thelancet.com/journals/landig/article/PIIS2589-7500(20)30291-0/fulltext

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Autor

Henk van Houten

Henk van Houten

Executive Vice President, Chief Technology Officer, Royal Philips

Henk van Houten joined Philips Research in 1985, where he investigated quantum transport phenomena in semiconductor nanostructures – work awarded with the Royal Dutch Shell prize. 

 

In 2016, he became Chief Technology Officer of Royal Philips. In this role, he has global responsibility for Research, Innovation Services, the Philips HealthWorks, Philips Innovation Campus Bangalore, Group Technology Start Ups, Technology and R&D Management, and the Idea to Market Excellence Program. He is Vice Chair of the Group Innovation Board.

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