Cada segundo conta para uma pessoa que está sofrendo um AVC. A urgência da intervenção médica torna-se crítica. Entre adultos com mais de 25 anos, 1 em cada 4 terá um AVC ao longo da vida.1 A jornada para revolucionar o tratamento do AVC é tanto um desafio quanto uma necessidade urgente. Avanços no tratamento do AVC, como a trombectomia mecânica (TM), estão prestes a transformar os resultados para pacientes com acidente vascular cerebral isquêmico agudo. A adoção generalizada dessas inovações exige repensar os protocolos atuais. Este artigo enfoca os desafios e as inovações que prometem redefinir o panorama dos cuidados neurovasculares.
Várias tendências importantes estão convergindo para impulsionar a transformação no tratamento do AVC.
A trombectomia mecânica surge como o padrão-ouro. Vários ensaios clínicos comprovaram a eficácia da TM no tratamento de oclusões de grandes vasos.2 Ela está se tornando cada vez mais a terapia de primeira linha, da mesma forma que a intervenção coronária percutânea (ICP) evoluiu para o tratamento do infarto do miocárdio. Os sistemas de atendimento ao AVC estão sendo reorganizados em redes do tipo “hub-and-spoke”, nas quais centros primários de AVC encaminham os casos para centros integrados de AVC com capacidade para realizar trombectomia.
Técnicas avançadas de imagem permitem a seleção personalizada do tratamento. Novos recursos de imagem estão mudando o paradigma da seleção de pacientes, que antes se baseava no tempo e agora se baseia no tecido. A tomografia computadorizada de perfusão e a ressonância nuclear magnética permitem que os médicos identifiquem tecido cerebral que ainda pode ser salvo e personalizem as decisões sobre a trombectomia para cada paciente, mesmo além das janelas de tempo tradicionais. A inteligência artificial (IA) também está sendo aplicada para detectar automaticamente oclusões de grandes vasos na angiografia por tomografia, agilizando o processo de triagem.
O alargamento dos intervalos de tempo amplia a elegibilidade para o tratamento. Com base em estudos de referência, como o DAWN e o DEFUSE 3, as diretrizes agora recomendam a trombectomia até 24 horas após o início do AVC em pacientes cuidadosamente selecionados com perfis de imagem favoráveis.3 Isso está aumentando consideravelmente a população elegível para a terapia endovascular. Critérios de seleção mais inclusivos estão sendo explorados para levar os benefícios da trombectomia a outros grupos de pacientes.
Inovações nos fluxos de trabalho pré-hospitalares e intra-hospitalares aumentam a eficiência. Novas estratégias, como unidades móveis de atendimento a AVC e a abordagem “Direct-to-Angio Suite”, visam eliminar atrasos e encaminhar os pacientes diretamente para a sala de trombectomia assim que chegam ao hospital. A melhoria na comunicação entre as equipes, no compartilhamento de dados e no processamento paralelo está reduzindo ainda mais minutos preciosos. Essas melhorias nos fluxos de trabalho são fundamentais para concretizar o potencial da trombectomia.
Otimização do projeto e das tecnologias das salas de angiografia. Salas de angiografia projetadas especificamente para esse fim e tecnologias adaptadas às intervenções neurorradiológicas estão criando um ambiente clínico mais eficiente. Recursos de imagem de ponta, como a tomografia computadorizada de feixe cônico e a orientação por navegação 3D, auxiliam o médico. As novas gerações de dispositivos de trombectomia alcançam taxas mais elevadas de revascularização completa. Todos esses aprimoramentos contribuem para melhores resultados técnicos e clínicos.
A trombectomia mecânica está revolucionando o tratamento do acidente vascular cerebral isquêmico agudo, assim como a ICP transformou o padrão de atendimento para infartos.
Apesar dos avanços notáveis alcançados, há obstáculos significativos que estão dificultando nossa capacidade de tornar a trombectomia acessível a todos que poderiam se beneficiar.
A falta de conscientização da população atrasa o tratamento
Os sinais de AVC muitas vezes passam despercebidos pelos pacientes e pelas pessoas ao redor, adiando a procura de atendimento médico até que seja tarde demais. Na verdade, essa falta de conhecimento é uma das principais causas do atraso na procura de atendimento médico. Um estudo constatou que 42% dos pacientes que apresentaram acidente vascular cerebral isquêmico agudo não foram tratados devido ao fato de terem sido internados fora da janela de tempo ideal para a terapia de reperfusão.4 Campanhas de educação pública sobre os sintomas do AVC e a necessidade de acionar os serviços de emergência imediatamente são cruciais.
Incerteza no diagnóstico e na triagem pré-hospitalares
Os socorristas, como os paramédicos, nem sempre estão equipados ou têm autonomia para diagnosticar AVCs com segurança no local do atendimento. Perde-se um tempo valioso no transporte dos pacientes para hospitais com capacidade para tratar AVCs. Teleavaliações de AVC realizadas na ambulância e recursos de diagnóstico baseados em IA poderiam ajudar a encaminhar mais pacientes ao centro adequado logo na primeira vez.
Escassez de instalações e especialistas capacitados para realizar trombectomias
A prestação de serviços de trombectomia 24 horas por dia, 7 dias por semana, requer investimento substancial em infraestrutura, equipe, treinamento, cobertura de plantões e coordenação de cuidados. Atualmente, menos de 5% dos pacientes com AVC em todo o mundo recebem tratamento adequado e oportuno.5 Será necessário construir centros de AVC mais abrangentes e formar mais especialistas para atender à crescente demanda.
Menos de 5% dos pacientes com AVC recebem, globalmente, tratamento adequado e oportuno — uma falha que os líderes de saúde poderiam ajudar a corrigir com as mudanças sistêmicas certas.
Barreiras à integração de dados e à coordenação do atendimento
O atendimento ao AVC depende de uma colaboração harmoniosa entre uma ampla equipe multidisciplinar que abrange os ambientes pré-hospitalar, hospitalar e pós-agudo. No entanto, sistemas de dados incompatíveis frequentemente criam silos entre esses profissionais. A centralização dos dados de EMS, de exames de imagem, de salas de angiografia e de registros poderia facilitar um atendimento ao AVC mais integrado e eficiente.
Incerteza sobre os impactos de longo prazo nos sobreviventes de AVC
Mesmo com o aumento do número de pacientes que sobrevivem ao AVC graças a terapias avançadas, os efeitos de longo prazo sobre sua qualidade de vida ainda não são totalmente compreendidos. Muitas pessoas ainda enfrentam deficiências significativas e necessitam de apoio contínuo. São necessárias mais pesquisas sobre como a trombectomia afeta os resultados funcionais de longo prazo e quais intervenções pós-AVC podem maximizar a recuperação.
Para concretizar todo o potencial da TM na redução de mortes e incapacidades decorrentes do AVC, precisamos investir em estratégias comprovadas e inovações promissoras. Esforços coletivos e coordenados por parte de líderes do sistema de saúde, neurorradiologistas intervencionistas, formuladores de políticas, parceiros do setor e fornecedores de tecnologia podem, em conjunto, conduzir a um futuro mais saudável.
Aumentar a conscientização do público e o reconhecimento precoce
Educar o público para identificar os sintomas do AVC e ligar imediatamente para os serviços de emergência é a primeira etapa da cadeia de sobrevivência. A sigla mnemônica FAST (paralisia facial, fraqueza no braço, dificuldade na fala e ligar para a emergência) é uma maneira simples, mas eficaz, de capacitar cuidadores e pessoas que estão por perto como o primeiro elo no atendimento ao AVC.
Acelerar o diagnóstico e a triagem pré-hospitalares
Oferecer às equipes de EMS melhor treinamento e ferramentas para o reconhecimento pré-hospitalar do AVC pode evitar atrasos e encaminhamentos incorretos. Teleplataformas móveis de AVC permitem que as equipes de ambulância entrem em contato com especialistas em AVC para avaliações remotas. Algoritmos de IA podem analisar ECGs e exames de TC realizados na ambulância para identificar oclusões de grandes vasos que justifiquem o transporte direto para um centro de trombectomia.
Ampliar a disponibilidade de centros e especialistas em trombectomia
O desenvolvimento de centros de tratamento de AVC com capacidade para realizar trombectomia em áreas carentes será fundamental para ampliar o acesso. Iniciativas como o Stroke Action Plan da União Europeia visam aumentar o número de pessoas que moram a uma distância de 45 a 60 minutos de um centro de TM e implementar estratégias nacionais para aprimorar o atendimento, desde a prevenção primária até o manejo pós-AVC.6 O treinamento interdisciplinar de profissionais de outras especialidades médicas, como radiologistas intervencionistas, neurocirurgiões e cardiologistas, para realizar trombectomias também poderia ajudar a aliviar a escassez de neurointervencionistas.
Otimizar os fluxos de trabalho e as abordagens técnicas dentro do hospital
Fluxos inovadores, como o modelo “Direct-to-Angio Suite”, que contorna o pronto-socorro e leva os pacientes com AVC diretamente para o exame de imagem e a intervenção, estão reduzindo o tempo de início do tratamento.7 Aperfeiçoamentos no projeto das salas de angiografia e nas tecnologias de trombectomia agora proporcionam uma recanalização mais rápida e melhores resultados. Estudos em andamento identificarão as abordagens técnicas ideais.
Integrar sistemas de dados multidisciplinares e comunicação
Plataformas de dados interconectadas que reúnem informações da ambulância, do laboratório de exames de imagem, da sala de angiografia e das unidades de cuidados pós-agudos podem otimizar a coordenação do atendimento e melhorar a qualidade. Um painel central que exibe métricas-chave com registro de data e hora para cada caso permite que as equipes analisem seu desempenho em tempo real. Repositórios baseados na nuvem possibilitam o compartilhamento de dados de exames de imagem e resultados entre centros.
Apoiar a recuperação duradoura e a reintegração dos sobreviventes de AVC
Por ser uma doença crônica, o AVC requer manejo de longo prazo para ajudar os sobreviventes a recuperar funções e retomar papéis significativos. A mobilização precoce, a reabilitação intensiva, o apoio psicológico e a capacitação profissional contribuem para maximizar a independência. As tecnologias móveis podem estender a reabilitação até o domicílio. O acompanhamento longitudinal de pacientes submetidos à trombectomia destacará como o procedimento afeta a qualidade de vida.
Ao otimizar protocolos, aproveitar a tecnologia e colaborar como uma equipe multidisciplinar, podemos administrar o tratamento certo ao paciente certo no momento certo.
Com essas estratégias, podemos reformular nossos sistemas de atendimento para que se concentrem no tratamento rápido e amplamente acessível por meio da TM. O futuro é um fluxo de atendimento simplificado e eficiente, no qual:
Nesse cenário futuro, a TM será a regra, e não a exceção, para acidentes vasculares cerebrais graves. Uma resposta coordenada a emergências e processos hospitalares otimizados tornam o tratamento disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, para todos os pacientes indicados. Com o reconhecimento precoce, o tratamento mais rápido e tecnologias avançadas, as taxas de revascularização bem-sucedida aumentarão. Transições contínuas para a reabilitação intensiva e o apoio de longo prazo maximizam os benefícios para a qualidade de vida dos pacientes. E manter os pacientes e suas famílias no centro pode garantir uma prestação de cuidados que realmente faça a diferença.
Essa visão é ambiciosa, mas alcançável. Por meio dos esforços conjuntos de neurorradiologistas intervencionistas em colaboração com a comunidade mais ampla de especialistas em AVC, é possível construir sistemas simplificados de atendimento ao AVC. O caminho à frente é desafiador, mas a oportunidade é imensa. Cada avanço no atendimento ao AVC, seja incremental ou revolucionário, se traduz em vidas salvas e futuros restaurados. Ao organizar nossos serviços para oferecer tratamentos rápidos e eficazes a todos os pacientes elegíveis, podemos reduzir drasticamente o impacto devastador do AVC.
Para saber mais sobre como você pode aproveitar os protocolos, as tecnologias e as abordagens em equipe mais recentes para otimizar a prestação de cuidados, explore nosso portfólio de cuidados neurovasculares e soluções clínicas específicas para o tratamento de acidente vascular cerebral isquêmico.
Quando se trata de AVC, cada segundo conta.
Infográfico: sistema de atendimento ao AVC do futuro