Nesta conversa, dois especialistas da Philips: Dra. Beatrice Murage, Diretora Global de Sustentabilidade e Acesso à Saúde e Dr. Sanjay Gandhi, Diretor Global de Assuntos Médicos e Estratégia Médica, compartilham suas percepções sobre os desafios multifacetados do acesso à saúde e as soluções inovadoras que estão sendo implementadas para reduzir lacunas críticas. Com sua vasta experiência no campo médico, eles exploram histórias de sucesso, o papel da tecnologia e suas esperanças para um futuro mais brilhante em saúde equitativa.
Dra. Murage: O acesso à saúde é um direito humano fundamental, mas vemos que cerca de metade da população global ainda não tem acesso a serviços essenciais de saúde. Disparidades no acesso à saúde existem não apenas em países em desenvolvimento, mas também em nações desenvolvidas, como os Estados Unidos.
O acesso aos serviços de saúde envolve diferentes facetas. Abrange aspectos como disponibilidade, acessibilidade econômica, acessibilidade física e virtual e aceitabilidade cultural. Esses elementos são fortemente interligados e desempenham um papel crucial para alcançar melhores resultados em saúde e, consequentemente, para a expectativa geral de vida entre diferentes grupos demográficos. Não é surpresa que aqueles com menos acesso aos cuidados de saúde experimentem piores resultados de saúde. Kaiser Permanente Institute for Health Policy [1] publicou recentemente um artigo sobre resultados em saúde materna. As mortes maternas prematuras e evitáveis nos Estados Unidos continuam aumentando, e mulheres negras e indígenas são afetadas de forma desproporcional. A publicação destaca questões que contribuem para essas disparidades, incluindo dificuldade de acesso à moradia segura, desigualdades econômicas, dificuldade de acesso ao seguro de saúde e disparidades raciais, especialmente para mães negras. Outra publicação da Kaiser Family Foundation [2] destaca disparidades para pessoas de cor em relação ao acesso a um médico ou profissional, levando essas pessoas a ficarem sem atendimento. Os resultados do Future Health Index 2024 [3] indicam que a escassez de profissionais de saúde e o burnout entre provedores continuam sendo um desafio significativo nos EUA, impactando o atendimento ao paciente.
Esses exemplos são apenas a ponta do iceberg da complexa natureza do acesso à saúde e de como o sistema de saúde é vivenciado por pessoas diversas.
Dr. Gandhi: Concordo totalmente com isso. O acesso a serviços de saúde oportunos é crucial para alcançar os melhores resultados de saúde. Existem certas maneiras de analisar as lacunas no sistema de saúde. Intuitivamente, todos pensam em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, onde pode haver falta de recursos, mas essa realidade também existe em países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Essas lacunas se manifestam de diversas formas, incluindo a disponibilidade de planos de saúde, a escassez de profissionais e as desigualdades geográficas. Os determinantes sociais da saúde, como o CEP e as necessidades de transporte, também desempenham um papel significativo nessas lacunas.
Considere a disponibilidade de seguro de saúde ou serviços de saúde. Você tem cobertura de seguro de saúde para acessar o sistema de saúde e, se tiver, consegue acessar o atendimento em tempo hábil? Dada a significativa escassez de médicos e pessoal da enfermaria, os sistemas de saúde não conseguem atender os pacientes em tempo hábil. Por exemplo, para consultar um cardiologista, você ainda pode ter que esperar de quatro a seis semanas. E isso não é ideal em uma situação em que você está enfrentando problemas cardíacos urgentes. Da mesma forma, a escassez de profissionais não está apenas impactando o seu acesso à saúde, mas também pode impactar seus resultados de saúde, pois os profissionais não conseguem passar tempo suficiente com os pacientes devido ao alto volume e à carga administrativa. Também penso no acesso à saúde do ponto de vista geográfico. Seja você de uma área rural, urbana ou suburbana, há evidências que sugerem que seus resultados de saúde estão ligados ao local onde você vive e o acesso aos cuidados de saúde é um componente disso. Quando penso nas lacunas relacionadas aos determinantes sociais da saúde, penso em códigos postais, necessidades de transporte, segurança financeira, alfabetização digital, características raciais ou de gênero, todos esses fatores contribuem para criar as lacunas no acesso ao cuidado que muitas pessoas enfrentam.
Dra. Murage: Com certeza. Há vários exemplos de como a Philips está oferecendo acesso ao cuidado. Nos Estados Unidos, estabelecemos uma parceria com a March of Dimes para oferecer cuidados maternos de qualidade em áreas com acesso limitado à saúde, especialmente por meio de serviços de ultrassom habilitados para telessaúde em Phoenix, Tucson e Washington, D.C. Nessa parceria, a Philips e a Fundação Philips fornecem não apenas tecnologia de ultrassom point-of-care com recursos de telessaúde, mas também suporte de equipe e apoio operacional aos profissionais de saúde locais e aos agentes comunitários de saúde. A tecnologia, por si só, não basta para promover o acesso ao cuidado; é necessária uma abordagem holística na oferta desses cuidados.
Outro exemplo é nossa colaboração com a Fundação Bill & Melinda Gates, na qual estamos trabalhando para melhorar o acesso dos pacientes ao atendimento obstétrico e para elevar a qualidade desse atendimento, com melhor detecção e planejamento de tratamento para gestações de alto risco. Além disso, queremos apoiar profissionais de saúde em países de baixa e média renda e, potencialmente, em áreas rurais ou carentes ao redor do mundo, para que possam operar com confiança aparelhos básicos de ultrassom obstétrico. Uma das formas será reduzir as necessidades e o tempo de treinamento para operar aparelhos de ultrassom, de semanas para horas, ajudando a enfrentar o desafio da escassez global de ultrassonografistas e do treinamento insuficiente de profissionais de saúde em técnicas de ultrassom. Por meio do desenvolvimento de algoritmos baseados em IA incorporados ao ultrassom portátil Philips Lumify, a aquisição ou interpretação de imagens para medições obstétricas pode ser automatizada, permitindo que profissionais de saúde sem conhecimento específico em ultrassom realizem exames e, com isso, melhorem o acesso a exames de ultrassom fetal precoce.
Além disso, participamos de iniciativas transformadoras que impulsionam a melhoria sistêmica por meio do engajamento com o nosso ecossistema. Uma delas é com a National Academy of Medicine, onde Roy Jakobs, nosso CEO, participa da criação de um código de conduta para o desenvolvimento responsável de IA e sua aplicação na saúde [4].
Dr. Gandhi: Considero estratégias práticas para melhorar o acesso ao atendimento de duas maneiras: a primeira é levar os pacientes ao atendimento de que precisam; a segunda é levar o atendimento aos pacientes onde eles estão.
Por exemplo, a saúde materna não termina depois que o bebê nasce. Existe o conceito do quarto trimestre, no qual o acompanhamento da saúde materna se estende por aproximadamente três meses após o parto. Muitas mulheres que apresentam pré-eclâmpsia ou complicações decorrentes de pressão alta durante a gravidez têm risco de desenvolver desfechos cardiovasculares adversos no futuro, e uma maneira simples de ajudar a prevenir isso é monitorar a pressão arterial após o parto. Infelizmente, a maioria dos sistemas de saúde não dispõe de recursos ou programas para abordar essa questão.
Para enfrentar esse problema, um sistema de saúde forneceu a gestantes com pré-eclâmpsia ou eclâmpsia um aparelho para medir a pressão arterial, além da possibilidade de realizar uma consulta virtual após o parto. A integração do cuidado às mulheres no período pós-parto por meio de consultas virtuais permite que elas enfrentem desafios de saúde e reduzam fatores de risco ao longo do tempo, sem comprometer suas responsabilidades como mães de recém-nascidos. Ao disponibilizar instrumentos simples, como braçadeiras de PNI para monitorização em casa, possibilitamos que o cuidado em saúde ultrapasse os ambientes convencionais.
Outra forma é oferecer cuidados aos pacientes no ambiente domiciliar. O American College of Cardiology publicou recentemente um manual de cuidados domiciliares [5] sobre como prestar cuidados cardíacos em casa, incluindo casos de uso. A maioria dos cuidados domiciliares pode ser administrada com a tecnologia atualmente disponível, seja por meio de consultas virtuais, braçadeira de PNI ou até mesmo coisas simples como uma balança conectada ao Prontuário Médico Eletrônico.
Há um ano e meio, a Philips organizou, em Cambridge, o Cancer Care at Home Summit, com o objetivo de reunir operadoras de planos de saúde, sociedades de oncologia e representantes da própria indústria para discutir quais inovações são necessárias para oferecer com sucesso cuidados domiciliares a pacientes com câncer e ampliar o acesso a esse atendimento no ambiente em que eles se sentem mais confortáveis. O trabalho resultante desse summit foi publicado pela American Cancer Society [6], e a colaboração para descobrir e alinhar nossas necessidades e oportunidades coletivas nos colocou em um caminho para impulsionar esse trabalho adiante. Como destaca o artigo: “Complementando a recente e inédita expansão das opções de tratamento do câncer, a oferta de cuidados oncológicos no local que o paciente considera seu lar pode ajudar a superar algumas barreiras históricas ao acesso equitativo à assistência, especialmente para populações marginalizadas em razão da localização geográfica, das necessidades de deslocamento até os prestadores de serviços de saúde, da proximidade com estudos clínicos e dos custos financeiros gerais associados ao tratamento do câncer [7].”
Dr. Gandhi: O potencial da tecnologia móvel na área da saúde é extraordinário. Por exemplo, vimos parcerias bem-sucedidas que utilizam exames de TC móveis para realizar triagem de câncer do pulmão em comunidades.
O câncer do pulmão é a principal causa de morte por câncer. Sabemos que a tomografia computadorizada de baixa dose pode detectar câncer de pulmão em estágio inicial muito melhor do que um raio-X. E, se você fizer a triagem dessa forma, pode reduzir a mortalidade pela doença. Em uma parceria entre a Philips e a Roswell, em Buffalo, Nova York, trouxemos tomógrafos móveis para a comunidade para oferecer esses exames em colaboração com o sistema de saúde, permitindo que os pacientes tenham acompanhamento para cuidados adicionais, se necessário. Este é um exemplo ideal de parceria em que podemos utilizar uma tecnologia já existente, mas há uma lacuna na adoção ou no acesso a essa tecnologia, mesmo sendo comprovadamente benéfica para a promoção da saúde. Isso também mostra que existe uma oportunidade de melhorar a saúde da comunidade ao ampliar o acesso à tecnologia [8].
Dr. Gandhi: Uma abordagem essencial é colaborar com parceiros comunitários locais para levar assistência médica diretamente aos que mais precisam. Falamos sobre o cuidado domiciliar; acredito que essa é uma tendência presente tanto na cardiologia quanto na oncologia. Também é possível oferecer atendimento de saúde nas escolas, para que os pais não precisem se ausentar do trabalho para levar seus filhos a uma consulta médica. Seria possível ampliar ainda mais esse atendimento para a comunidade, oferecendo esses serviços, por exemplo, em bibliotecas públicas, onde os pacientes podem se sentir mais à vontade.
Considerando a capacidade das pessoas de se deslocarem, os sistemas de saúde podem considerar oferecer uma opção de transporte. Considere um paciente em diálise, por exemplo, que precisa estar em um centro três vezes por semana. É possível oferecer transporte para que essas pessoas não precisem se preocupar se conseguirão chegar a tempo de receber esse atendimento que pode salvar vidas? Por fim, quando penso em procedimentos como a angiografia coronariana, que são bastante complexos e realizados principalmente em ambiente hospitalar, há regiões do país, especialmente áreas rurais dos Estados Unidos, onde as pessoas não têm acesso fácil a esses sistemas e serviços de saúde. Então, com um conceito como o de centro cirúrgico ambulatorial, é possível trazer esse atendimento para mais perto de casa?
Dra. Murage: Com o exemplo do programa Philips Roswell Park Comprehensive Cancer Center, em um caso, o profissional de saúde posicionou uma unidade móvel de tomografia computadorizada do lado de fora de uma igreja, e assim as pessoas vão se acostumando a vê-la enquanto fazem suas atividades. Isso aproxima o atendimento dos membros da comunidade. Além disso, pode ser menos intimidador realizar o exame na unidade móvel do que ter que ir a um grande hospital para receber o mesmo atendimento. Muitas pessoas ficam intimidadas ao entrar em um hospital para buscar atendimento, até eu me sinto assim. Mas, se os serviços de saúde chegam à comunidade, as pessoas podem interagir com eles em sua zona de conforto. Isso pode promover uma relação de confiança que é muito importante, especialmente quando consideramos o aspecto da aceitação dos serviços pelos pacientes.
O outro local onde o caminhão de tomografia computadorizada móvel é posicionado é do lado de fora de um quartel de bombeiros. Os bombeiros apresentam um risco elevado de desenvolver câncer de pulmão devido aos tipos de toxinas aos quais são expostos durante o exercício de suas funções. Disponibilizar o serviço mais próximo deles ajuda a mitigar as barreiras de distância e tempo ao acesso. O design do programa permite que o Roswell Park Comprehensive Cancer Center se envolva de forma mais eficaz com a comunidade que atende, diretamente na própria comunidade. E a Philips, por meio de nossas soluções inovadoras, tem orgulho de participar de levar o cuidado além do hospital, chegando às comunidades. Adoro essa visão holística em termos de como estamos abordando nossas parcerias.
Dra. Murage: Estou particularmente esperançosa com a crescente colaboração entre os diferentes atores da indústria da saúde. É animador ver que pesquisas sobre os determinantes sociais da saúde estão sendo cada vez mais incorporadas ao desenvolvimento de programas comunitários de saúde e de cuidados ao paciente, que abordam de forma mais eficaz os desafios do acesso à saúde e as questões de equidade em saúde. Percorremos um longo caminho; no entanto, ainda temos um caminho a percorrer.
Dr. Gandhi: Compartilho desse otimismo. Só o fato de estarmos aqui e tendo essa conversa já diz muito sobre a crescente conscientização e o desejo de melhorar o acesso. Avanços tecnológicos, especialmente em saúde digital e IA, estão capacitando os pacientes a assumirem um papel ativo em seus cuidados de saúde, o que pode levar a melhores resultados. E esse é sempre o objetivo.